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Alvo da Lava-Jato, fundador do BVA cresceu com empresas de ônibus, fundos de pensão e BNDES – Fonte EXTRA

IrmaosMetralhaRennan Setti – O Globo

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RIO – Alvo de prisão temporária na 41ª fase da operação Lava-Jato, deflagrada nesta sexta-feira, o ex-banqueiro José Augusto Ferreira dos Santos ergueu seu banco, o BVA, com base em uma tríade que sempre levantou desconfiança entre seus pares: empresas de ônibus do Rio, fundos de pensão e BNDES. Mas seu estilo de fazer negócios, que gerou frutos por mais de duas décadas, eclodiria em um escândalo de falência que legou R$ 4,5 bilhões em prejuízos a quatro mil credores e suspeitas de corrupção.

Um empresário do mercado financeiro carioca lembra que a carreira de Ferreira dos Santos começou nos anos 80, como gerente de captação do Mercantil Finasa, do banqueiro paulista Gastão Vidigal. Dali migrou para a Ponto 3, distribuidora de investimentos que pertencia a Carlos Firme, dono de construtora homônima e que foi um dos desbravadores da Barra da Tijuca. Quando Firme resolveu se desfazer do negócio, Ferreira dos Santos estava pronto para assumir a empresa.

— Mas, até ali, a Ponto 3 era uma empresa pequena. O que se sabe é que ele começou a ganhar dinheiro de verdade foi no relacionamento com empresários do setor de ônibus do Rio — lembrou aquela fonte. — È um segmento que gerava receita em espécie, e o José Augusto tornou-se um operador especializado nesse tipo de negócio.

Em 1994, o negócio de Ferreira dos Santos ganhou musculatura suficiente para se transformar no banco comercial BVA. O relacionamento com os chamados “tubarões” dos ônibus do Rio continuaria forte, mas agora por meio de operações do programa de financiamento do BNDES Finame. O Finame, que financia a produção e a compra de máquinas e equipamentos, é disponibilizado pelo banco público mas distribuído por instituições privadas.

— Ele se tornou o grande operador de créditos do Finame para essa clientela do setor de ônibus. Depois, seu grande salto foi se tornar um grande especialista na prestação de serviços financeiros aos fundos de pensão de estatais — disse essa fonte, explicando que o BVA ele fazia intermediação de produtos como debêntures ou cessão de Cédulas de Crédito Bancário (CCB).

INVESTIGADO NA OPERAÇÃO GREENFIELD

A relação de Ferreira dos Santos com os fundos de pensão acabaria sendo investigada pela Polícia Federal na Operação Greenfield, deflagrada em 2016 e que apura supostos desvios em fundos de pensão de estatais. Os investigadores suspeitam de que a gestora de recursos Vitória Asset, que fazia parte do BVA, era usada para camuflar propinas a políticos. Os fundos de pensão também sofreriam grandes perdas com a falência do banco.

Em meados dos anos 2000, o banco enfrentaria barreiras no BNDES e migraria seus esforços para os segmentos de crédito consignado e de empréstimos para empresas de pequeno e médio porte. Também atuou em outros empreendimentos, como na sociedade que construiu o Shopping Leblon, na Zona Sul do Rio.

No início da década seguinte, porém, os problemas do banco estouraram, depois de um movimento agressivo de crescimento que fez com que seus ativos batessem R$ 5 bilhões. Segundo observadores, o crescimento foi inflado por uma estratégia irresponsável de investimentos. O banco passava também por mudanças societárias e dificuldades para publicar suas demonstrações financeiras. Nessa época, Ferreira dos Santos já tinha como sócio Ivo Lodo, que chegou à instituição em 2006 vindo do Safra. O fundador do Grupo Caoa, Carlos Alberto de Oliveira Andrade, também tinha uma fatia do banco.

Os problemas se mostrariam insuperáveis, e o Banco Central decretou intervenção no BVA em 2012, por causa de descumprimento de normas bancárias. Naquele ano, vários bancos de médio e pequeno porte enfrentaram o mesmo destino. Com um rombo em seu balanço, o BVA acabou entrando em situação de insolvência, sem condições de honrar seus compromissos. À época, o BVA detinha apenas 0,17% dos ativos do sistema financeiro e 0,24% dos depósitos. Tinha ao todo sete agências, no Rio, em Minas Gerais e em São Paulo. Em junho de 2013, o BC finalmente liquidou o banco e, no ano seguinte, o liquidante entraria com pedido de auto-falência da instituição.

BANIDO DO MERCADO

A liquidação e a falência do BVA deixou um passivo total de R$ 4,5 bilhões de sua massa falida. São ao todo 4 mil credores, sendo a maioria correntistas que tinham dinheiro no banco. Entre os ativos estão imóveis espalhados por todo o país. Já foram realizados três leilões desses imóveis, levantando cerca de R$ 25 milhões. O mobiliário que pertencia ao banco, como mesas e cadeiras, também está em leilão, no site Superbid.

Mas o principal ativo do BVA é sua carteira de crédito na praça, cujo valor de face é de R$ 2,3 bilhões. Estima-se que é possível vendê-la por R$ 185 milhões em leilão, mas o juiz da 1º Vara de Falências de São Paulo precisa ainda autorizar a operação.

Desde a decretação da falência do banco, todos os bens de Ferreira dos Santos estão bloqueados. Ele também foi banido do mercado financeiro pelo BC por 15 anos por desvio de recursos entre 2009 e 2011. A autarquia entendeu que ele e outros ex-administradores desviaram quase R$ 200 milhões em recursos do banco.

Nos últimos anos, Ferreira dos Santos tinha deixado o Rio e se estabelecido em São Paulo, acompanhando o movimento do próprio BVA. Ele acompanha de perto a massa falida do banco que fundou e, segundo pessoas próximas, não costuma apresentar obstáculos ao processo.

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